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Copy From China

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Salas de aula conectadas salvam educação no interior da China

Felipe Zmoginski

09/03/2018 04h32


Wang emocionou a web por sua obstinação em estudar

A foto acima causou comoção mundial ao viralizar na internet no início de janeiro. Seu autor é provavelmente um colega de classe do pequeno Wang Fuman, o menino de 8 anos no centro da imagem, com os cabelos e sobrancelhas congelados.

Wang vive em Zhaotong, uma área rural na província de Yunnan, próxima da fronteira chinesa com o Mianmar. No dia em que a imagem foi clicada, Wang havia caminhado por uma hora, sob nove graus negativos, para chegar à escola.

Wang foi abandonado pela mãe ainda bebê e vive com os avós. O pai mudou-se para Guangzhou, uma próspera cidade no sul da China em busca de trabalho. A repercussão gerou uma onda de solidariedade e Wang ganhou roupas quentes e dinheiro para a condução de seus vizinhos.

O caso, porém, está longe de ser isolado. Com a dramática migração de chineses do campo para as cidades, milhares de escolas no interior do país acabaram fechadas por falta de alunos. Outras encolheram incrivelmente. Em Dinxi, uma área rural na província de Gansu, centro-norte do país, uma sala de aula em que, em 2008 estudavam 300 crianças, agora só abriga 3 alunos.

Como assegurar aulas de qualidade para estes jovens apelidados na China de “a geração deixada para trás”? A resposta é óbvia: com tecnologia. Em Dinxi, desde 2017, uma iniciativa da estatal de telefonia China Unicom com a startup Hujiang EdTech, sediada em Xangai, conecta pequenas escolas rurais com salas de aula em zonas urbanas bem assistidas por professores qualificados.


Aula virtual conecta áreas remotas aos mestres das melhores escolas

Os estudantes de Dinxi têm aulas presenciais com mestres de sua província, em disciplinas como matemática, língua chinesa padrão (chamada de putonghua, por padronizar dialetos de todo país) e história.  Aulas de inglês, música, computação e ciências são ministradas remotamente. Os estudantes virtuais interagem normalmente, respondem à chamada oral de seus professores remotos, apresentam trabalhos e, ao levantar uma mão, podem interrompem as explicações dos mestres para tirar dúvidas, como fariam em uma aula presencial.  A plataforma usa uma conexão de 100 Mbps interligando as escolas no campo e na cidade, projetores e câmeras de transmissão.

A ideia é manter a autoridade nas mãos dos professores dos vilarejos, mas permitir que eles sejam apoiados por mestres em áreas do conhecimento que não dominam, como inglês, idioma em que muitos docentes não tem proficiência.

“Estudantes de áreas rurais não são menos brilhantes que crianças urbanas. Eles só precisam ter acesso ao mesmo nível de ensino e oportunidades”, escreveu o CEO da Hujiang EdTech em seu perfil na rede social WeChat.  A qualidade das aulas, porém, não é suficiente para assegurar bom aprendizado. Um estudo do órgão equivalente ao ministério da Educação na China aponta que filhos de pais migrantes têm notas sensivelmente mais baixas. A equação é simples: quando a mãe (ou o pai) migram e vivem longe dos filhos, a tendência é que eles relaxem nos estudos.

Para contornar este obstáculo, a startup PujianTechnology desenvolveu um app para conectar “tiger (and dad) moms” que vivem na cidade, mas deixaram os filhos no campo. O app compartilha entre os pais, alunos e professores as notas das crianças, seus pontos fortes e áreas em que é necessário maior desenvolvimento.  Uma aba de vídeos permite que os pais mandem mensagens de incentivo às vésperas de exames.

Em ambos os casos, a meta é reduzir distâncias e dar a meninos como o pequeno Wang oportunidades mais próximas daquelas dos garotos de Beijing ou Xangai. Para um país continental como o Brasil, este é mais um caso em que vale (muito) a pena “copy from China''.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski é jornalista, foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e é secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre e organiza missões de negócios para a China. Com MBA em marketing pela FGV, desde 2013 é gerente de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições, falhas e oportunidades que são geradas para brasileiros que se interessam por consumir soluções tecnológicas inovadoras e compreender a ascensão da nação pobre que se tornou potência mundial em menos de três décadas.