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Felipe Zmoginski

Sistema de crédito social chinês revela uso autoritário da tecnologia

Felipe Zmoginski

28/03/2018 04h17


Chineses no metrô: exagerar nos games fará cidadão perder pontos

Um meme resgatado pela internet na semana em que eclodiu o escândalo Cambridge Analytica mostra que Julian Assange, o criador do Wikileaks, tornou-se um criminoso por entregar dados de órgãos privados para visualização pública gratuitamente. Ao mesmo tempo, Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, tornou-se "homem do ano" ao entregar dados públicos às corporações privadas por dinheiro.

É uma piada trágica e seu conteúdo não surpreende. No mundo da tecnologia, até as vovozinhas mais inocentes sabem que, quando o serviço é gratuito, o produto somos nós. Somos espionados o tempo todo pelas corporações digitais, que usam esforços de marketing e relações públicas de tempos em tempos para dizer que não é bem assim, que praticam "rigoroso controle" dos acessos a nossos dados.  Pode ser hipocrisia, mas ao menos fingem se importar.


Criminosos e heróis: na China, a espionagem sequer usa disfarces

Na China, porém, tornou-se público e sem maquiagem um plano público-privado de vigiar seus cidadãos online, conferindo-lhes uma "pontuação social" que, na prática, vai premiar gente "bem comportada" e punir "desordeiros".

Chamado de "sistema de crédito social", o programa usará ferramentas de big data para coletar e analisar informações de todos cidadãos online, hierarquizando-os em níveis mais ou menos confiáveis. No discurso oficial, a ideia é nobre: proteger a sociedade de quem espalha boatos online, premiar cidadãos que recolhem impostos em dia e pagam seus empréstimos em bancos sem atraso. Na prática, será uma ferramenta de vigilância em massa que pesará especialmente sobre jornalistas, contadores, professores e guias de turismo, profissionais que ficarão sobre escrutínio mais rigoroso.


Sesame Credit:  bons cidadãos ganham descontos em compras 

Um projeto piloto é conduzido desde 2014 pela Sesame Credit, subsidiária do grupo Alibaba. A Sesame analisa o comportamento online de voluntários chineses que, em troca de seus dados, ganham descontos em passagens aéreas e aluguel de carros.  O funcionamento do sistema não é totalmente transparente, mas sabemos que um usuário que gasta muito dinheiro com games e permanece por horas a fio jogando online recebe menos pontos que aquele que compra livros ou fraudas para bebê, compreendido como uma pessoa mais responsável.

Quando funcionar a todo vapor, em 2020, o sistema cruzará dados de ecommerce, autoridade fiscal e registros de boletins de ocorrência. Quem fizer barulho depois das 22 horas, fumar em áreas proibidas ou for pego dirigindo bêbado, perde pontos. Em entrevista à BBC, a blogueira Wen Quan defendeu a regra. "Sem um sistema assim, um estelionatário comete um crime em um lugar e, logo depois, faz o mesmo em outra região do país", disse. Quem tiver baixa pontuação, prevê o projeto, pode ser impedido de comprar passagens nos trens de alta-velocidade da China ou voos internos por até um ano.

Sonegar impostos ou fazer algazarra após uma bebedeira são atitudes reprováveis, mas certamente há formas mais aceitáveis de punir tais desvios que simplesmente taxar os infratores como de baixa confiabilidade, prejudicando seu direito de viajar, tomar empréstimos ou conseguir empregos. Na Europa, por exemplo, o poder público move-se em direção oposta, com a aprovação de leis como a do "direito ao esquecimento" em que fatos vexatórios da vida de uma pessoa, ainda que verídicos, devam ser excluídos de registros online.

Ao contrário do passado recente, em que foi um país pobre e fechado, a China atual é uma potência global e projetar sua influência cultural sobre o mundo é uma necessidade para atingir seus objetivos econômicos. Investir na política de crédito social é um passo que posiciona a China mais próxima do quadrante das ditaduras que o das nações admiradas por sua ascensão.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.