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Ataques a Huawei e ZTE são reação à derrota tecnológica para a China

Felipe Zmoginski

18/12/2018 04h00

Tecnologia 5G vai gerar US$ 1 trilhão em royalties até 2030, prevê órgão da ONU

O imbróglio em torno da prisão de uma executiva da Huawei, no Canadá, a pedido dos Estados Unidos, e as acusações de espionagem feitas, há um ano, contra a ZTE, e, mais recentemente, contra a própria Huawei, são um pretexto para defender os interesses comerciais dos Estados Unidos.

É possível (e até provável) que em algum momento ZTE e Huawei tenham, de fato, usado sua infraestrutura de TI para espionar competidores e governos fora da China. De todo o modo, isto é uma hipótese e nenhuma prova foi apresentada contra as empresas por seus acusadores, no caso, a administração Trump.

Como se sabe, empresas privadas de tecnologia são, muitas vezes, usadas para espionar a serviço de seus governos, como comprovou Eduard Snowden, ao revelar como os gigantes Google, Facebook e Microsoft generosamente abriam dados privados de seus usuários para agentes americanos, sem a devida autorização judicial, registre-se.

Esta semana, o Wall Street Journal revela que uma reunião entre chefes de espionagem de países como o Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália e Reino Unido aconteceu em julho deste ano com um tema único: impedir o avanço da Huawei no mundo. A missão tem até nome: Five Eyes. Está ali, dito com todas as letras: chefes de espionagem do Ocidente se encontraram para planejar como parar o avanço comercial de uma empresa chinesa.

Em um mundo em que todos espionam todos, acusar um rival de "espionagem" para lhe bloquear o acesso a grandes contratos é apenas uma forma renovada de protecionismo comercial. Nos Estados Unidos, a prática protege a Cisco da competição com os produtos de telecom chineses, mais baratos e competitivos.  Quase nada de "segurança nacional". Quase tudo de protecionismo econômico.

De acordo com a International Telecommunication Union (ITU), um órgão das Nações Unidas, dominar as patentes de 5G permitirá gerar 800 mil empregos qualificados e faturar até US$ 1 trilhão em royalties na década de 2021 a 30. Quem abocanhará este filão? Se as forças do mercado atuarem livremente, por mérito, venceria a China, país que registra mais patentes no setor e está um degrau acima dos rivais ocidentais no desenvolvimento das redes 5G. Além de permitir navegar mais rápido por dispositivos móveis, a futura geração de telefonia móvel é item essencial para viabilizar a indústria de carros autônomos, aplicações profissionais de realidade virtual, teleconferências em movimento e cirurgias remotas.

Além disso, desde setembro, a Huawei é também o segundo maior fabricante de smartphones do mundo, à frente da Apple e atrás apenas da Samsung, de acordo com dados da consultoria IDC. Bloquear a Huawei é, portanto, muito mais um objetivo econômico que uma ameaça "real" à segurança nacional de qualquer país. Em um cenário ideal, a ação do Five Eyes sufocaria a Huawei, limitando-a ao mercado interno.

Como nesta disputa não há ingênuos, a China se antecipa ao provável declínio que terá junto aos mercados Ocidentais avançando sobre seus vizinhos da Ásia, notadamente os parceiros da "Belt and Road Innitiative", que prioriza Indonésia, Índia e parte da África e Oriente Médio como destino preferencial de suas exportações. Como se vê, a defesa do livre-mercado e da competição é um livro que se lê só até a página dois.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.

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