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Sucesso da Xiaomi mostra que ‘made in China’ mudou de patamar

Felipe Zmoginski

25/06/2019 04h00


Loja física da Xiaomi em Shenzhen: lotação permanente

Por décadas produtos "made in China" foram associados ao baixo custo e à baixa qualidade. Com o sucesso recente da Xiaomi, a China tem uma marca que desperta o desejo de consumidores muito além do mercado doméstico

"Já que você está indo para a China, pode me trazer um Xiaomi?" É impossível contar para os amigos mais próximos (e alguns nem tanto) sobre seus planos de viajar para Beijing ou Shenzhen e não receber encomendas da fabricante de eletrônicos chinesa.

Ao visitar as lojas da marca nas grandes cidades da China, fica evidente que não sou o único viajante a receber encomendas de parentes. As flagships da Xiaomi estão apinhadas de estrangeiros buscando pelos notebooks, smartwatches e telefones da marca.

O fenômeno é simbólico, já que por décadas produtos "made in China" foram associados ao baixo custo e… à baixa qualidade. Basicamente, ninguém se espremia em filas para comprar o último modelo de um celular chinês. Definitivamente, a China tem uma marca que desperta o desejo de consumidores muito além do mercado doméstico.

Avaliada em mais de US$ 30 bilhões, a companhia ainda sofre com altas e baixas no mercado de ações, mas avança de forma consistente nos mercados "overseas", como os chineses chamam tudo aquilo que não é a China continental. Atualmente, a companhia emprega 15 mil pessoas e figura na lista das cinco maiores vendedoras de celulares em mercados como China e Índia, além de estar entre as dez maiores na Malásia, Indonésia e Singapura.

No Brasil, a Xiaomi tentou em 2014 uma incursão com escritório próprio e integração de equipamentos em plantas industriais no interior de São Paulo. Foi vítima de uma tempestade perfeita. Crise econômica, política, fim da MP do Bem (que dava benefícios fiscais ao setor) e impaciência dos chefes chineses levou a operação a um fim precoce em 2016. Só este ano a empresa voltou ao Brasil, a partir de uma parceria com a fabricante brasileira DL.

O desejo dos consumidores brasileiros por produtos Xiaomi, no entanto, cresceu ao ponto de muita gente importá-los diretamente da China, ainda que estes cheguem ao Brasil sem Google Play nativamente instalado, além de outras pequenas (e médias) dificuldades de adaptação. Produtos já adaptados ao mercado internacional, com Google Play, podem ser importados, desde que de Hong Kong que, como sabemos, não é China, ao menos no sentido de regulação para comércio internacional.

Na China, o aspecto 'cool' da marca a levou a ampliar sua linha de produtos para muito além dos celulares. Secadores de cabelo, escovas de dente, travesseiros high-tech, fones de ouvido, projetores de vídeo, sistemas de ar condicionado e até itens de moda, como bonés e mochilas são vendidos com a marca Mi.

O sucesso da Xiaomi é um divisor de águas para os produtos "made in China", que muitas vezes ganham mercado por oferecerem preços menores. Este é um caso, porém, de construção de uma marca admirada e desejada por sua excelência. O último estágio da evolução das jovens e inovadoras companhias chinesas.


Mercado de eletrônicos em Huanqianbei, Shenzhen: do produto de má qualidade às grifes chinesas

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.

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