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Unicórnio chinês diz que crédito ficará mais simples com blockchain e IA

Felipe Zmoginski

13/05/2020 04h00

Beibei Liu: "tecnologia permitirá acessar capital do mundo todo" (Divulgação/ Nova Dax)

No Brasil, a cada 100 pessoas que procuram uma instituição financeira pedindo crédito, apenas 4,5 obtêm os recursos desejados, de acordo com estatísticas do Banco Central. E mesmo este pequeno grupo paga juros mais altos do que, de fato, poderia, pois a pouca informação que há sobre o tomador de crédito e a baixa oferta de capital disponível para empréstimos encarece este processo.

A equação entre oferta, procura e riscos para quem empresta dinheiro poderá ser mais favorável a todos os envolvidos nesta cadeia se houver mais dados e tecnologia disponíveis. Esta é a ideia central defendida por Beibei Liu, uma executiva de 29 anos, formada em matemática aplicada, que ajudou a fundar o Abakus Group, fintech chinesa avaliada em US$ 1,5 bilhão. No Brasil, Beibei lidera a operação da NovaDax, um mercado de negociação de criptomoedas que já atende 100 mil usuários. De seu apartamento em São Paulo, onde cumpre quarentena, Beibei conversou com o Copy From China.

A Abakus operou no Brasil, há alguns anos, com o serviço WeCash, mas depois deixou o país. Por quê?

O WeCash não é uma empresa que empresta dinheiro às pessoas, mas sim que estuda o perfil dos usuários se valendo de tecnologias como big data e machine learning. Esta análise rica, baseada em tecnologia, permite entender melhor a capacidade de pagamento de um tomador de crédito. Nós ajudamos a conectar instituições que têm recursos disponíveis com tomadores confiáveis.

Somos muito lucrativos na China fornecendo este suporte tecnológico, que torna todo o mercado de crédito mais estável e confiável. Recentemente, atingimos o break even (equilíbrio de receitas e gastos) também na Indonésia e na Tailândia.

No caso do Brasil, não saímos em definitivo. Fizemos alguns estudos e entendemos que o mercado deve amadurecer um pouco mais para que se torne atraente para a WeCash. Penso que, no futuro, voltaremos ao país, pois há grande potencial para ajudar o setor de crédito no Brasil.

De que forma as novas tecnologias podem ajudar o setor de crédito?

Em primeiro lugar, criando uma base rica de dados sobre a renda, hábitos e o comportamento dos usuários. Para um banco, em tese, quanto mais ele emprestar, melhor, pois é a forma como geram receita. Naturalmente, eles precisam gerenciar o risco, entender qual a chance de aquele tomador ficar inadimplente.

No mundo tradicional, você pergunta quanto a pessoa ganha, quanto pode pagar por mês e checa se ela tem algum histórico de calote. Quando você usa ferramentas de inteligência artificial, deixa as máquinas fazerem projeções preditivas sobre o comportamento dos usuários. Você tem um cenário em que seu nível de informação para dizer "posso emprestar" ou "não posso emprestar" é mais elevado. No final, é possível emprestar mais, cobrar menos juros e gerar menos riscos sistêmicos, evitando operações que terminariam em inadimplência.

O uso de tecnologias blockchain contribui para ampliar a oferta de crédito?

Sim, sem dúvida. O blockchain é uma revolução em múltiplas frentes. Hoje é muito complexo e caro você conectar uma pessoa com capital para emprestar em um país como a China e um tomador em um país como o Brasil, por exemplo. Com blockchain, transações internacionais se tornam muito mais baratas, seguras e rápidas. Esta tecnologia elimina uma porção de checagens burocráticas que são custosas e ineficientes.

Na prática, a popularização do blockchain permitirá maior acesso de mercados com baixa oferta de crédito a capital internacional. Será um motor de avanço para muitas economias, como o Brasil.

Há outros benefícios indiretos, como melhorar o comércio internacional. Atualmente, um drama de todos que fazem importação e exportação é ter segurança de que seu dinheiro chegou ao destino no momento certo, de que uma mercadoria não foi embarcada sem que o pagamento fosse recebido, essas coisas. Com a velocidade do blockchain, que permite rastrear o fluxo do dinheiro em tempo real, tudo fica mais eficiente.

É por isso que a Abakus mantém no Brasil uma operação com foco em blockchain e criptomoedas?

Nosso mercado de compra e venda de criptocoins é internacional e, além da China, nossa sede, estamos nos Estados Unidos e Europa. Na América Latina, o Brasil é o primeiro país a contar com uma operação nossa e isso se deve mais ao tamanho do mercado local. Vamos investir US$ 3 milhões só este ano para crescer nossa base de clientes no Brasil, que atualmente é de 100 mil usuários. Espero poder dobrar este número até o fim do ano.

Desejo por diversificação faz procura por criptomoedas crescer com pandemia (Divulgação/ Nova Dax)

A atual crise financeira auxilia o comércio de criptomoedas?

Ajuda, pois as pessoas tentam variar seus investimentos em tempos de instabilidade.

Atualmente, temos basicamente dois perfis de investidores. Um deles, menos numeroso, chamamos de "Old Money", que é composto por pessoas com mais idade, eventualmente acima dos 50 anos. São mais conservadores e investem em moedas famosas, consagradas, como Blockchain e Ethereum. Em número absoluto, não são muitas pessoas, mas em volume transacionado são relevantes, pois movimentam grandes valores.

E temos uma massa de "Young Money", que são jovens que investem quantias menores, porém o fazem numa gama muito distinta de moedas, assumem mais riscos. Atualmente, temos 30 tipos de criptomoedas que podem ser negociadas em nossa plataforma. E estes "Young Money" também são muito voláteis e mudam constantemente de plataforma, buscando aumentar sua rentabilidade no curto prazo.

Para muitas pessoas, o universo das criptomoedas ainda é muito distante. Você acredita que estas tecnologias vão se popularizar?

É natural que inovações e formas disruptivas de fazer qualquer atividade, como investir, gere alguma insegurança no começo. Até mesmo a regulação destes setores ainda precisa amadurecer no mundo. No entanto, este é um caminho sem volta e as criptomoedas farão parte de nosso dia a dia e certamente serão uma das opções na cesta de investimentos dos poupadores brasileiros e chineses.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.