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Novo normal força startup de alimentos a rever modelos de negócios

Felipe Zmoginski

10/06/2020 04h00

Proposta de startup era que famílias pudessem vender a comida feita em casa (Reprodução/ Home Cook)

Nada será como antes após a pandemia de covid-19. Na China, único país do mundo a sair dos efeitos da quarentena há mais de 60 dias, o "novo normal" impôs hábitos diferentes de se comportar, consumir e… planejar modelos de negócios.

Uma das vítimas do novo "mindset" pós-covid foi a celebrada startup de Xangai,  Home Cook. Ícone do sucesso da "sharing economy" (ou economia compartilhada) na China, o negócio permitia que pessoas comuns, como eu e você, ganhassem dinheiro com a comida a mais que preparamos em casa. Ao fazer uma macarronada para a família, por exemplo, o usuário poderia preparar umas porções a mais e a oferecê-las via app. Uma e-marmita, digamos. Um serviço de logística terceirizado retira e entrega as refeições "feitas em casa" por cozinheiros não profissionais a seus consumidores finais. Naturalmente, quem faz a comidinha a mais é remunerado por isso. Ou era.

O covid-19  fez acender luzes vermelhas na mente dos consumidores chineses, agora (quase) maníacos por higiene, o que os faz preferir refeições preparadas em cozinhas industriais, de grandes redes de restaurantes, em tese mais limpos e sob melhor vigilância sanitária. O tipo de comida solicitado via app também mudou radicalmente.  Lojas de fast food nunca venderam tão mal, já que após meses de exposição a notícias sobre imunidade e saúde, (quase) todos consumidores preferem alimentos frescos, com pouca gordura, açúcar e sódio e alto valor nutricional.

Os novos hábitos selaram o fim dos serviços amadores de alimentação, como o Home Cook. Na última semana, a startup anunciou o encerramento das suas atividades.  A súbita falência foi um choque para os investidores da empresa iniciante, que em menos de dois anos de atividade captou 3,5 milhões de usuários e mais de 40 mil "famílias" cozinheiras.

Na China, a Home Cook enfrentava dificuldades desde abril, quando a pandemia atraiu grandes players para o negócio de delivery de comida. Um setor que já era altamente competitivo tornou-se quase proibitivo para empresas iniciantes no disputado mercado chinês.

O "novo normal" impõe a empresas do setor de nutrição novas licenças sanitárias para manipulação de alimentos. Para negócios que operam com baixa escala, como uma família cozinheira, os custos com burocracia operacional se tornaram sufocantes.

Institutos de análise de comportamento do consumidor registram que comidas saudáveis estão no topo das preferências dos chineses neste período pós-pandemia. Agora, apontam pesquisas da iMiidia e da Nielsen, por exemplo, compradores checam em seus celulares tudo o que se refere às bebidas e comidas que vão ingerir. Opiniões de outros consumidores, descrição de marcas rivais e especificações dos produtos. Até os consumidores mais idosos, que apenas recentemente venceram a resistência de fazer compras via app, já têm o hábito de pesquisar rótulos e opiniões online.

De acordo com pesquisas dos institutos acima, 80% dos entrevistados disseram que prestarão mais atenção à alimentação saudável e 75% querem gastar mais em esportes e produtos fitness no futuro próximo. Na análise, 60% dos entrevistados afirmam que aumentarão os gastos com exames médicos regulares.

A dúvida dos analistas mundo afora é se esta tendência se replicará no Ocidente tão logo os países da Europa e das Américas superem suas crises sanitárias. Os sinais mais prováveis indicam que sim. Ninguém mais tratará sua saúde – e alimentação – como antes.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.