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Maior do mundo, fintech de Jack Ma esnoba Nasdaq e abrirá capital na China

Felipe Zmoginski

29/07/2020 04h00

Jack Ma, fundador do grupo Alibaba, detém 50% da fintech Ant Financial (Divulgação/ Alibaba Group)

A mais valorizada fintech do mundo, a Ant Financial, controlada pelo fundador do grupo Alibaba, Jack Ma, oficializou este mês que trabalha em seu processo de abertura de capital, o chamado IPO. Na linguagem dos mercados financeiros, "abrir capital" significa colocar uma parte das ações da empresa à venda em uma bolsa de valores o que, além de capitalizar a fintech, a obrigará a seguir regras de governança e transparência mais rígida. Sinal dos tempos, a Ant Financial está ignorando a bolsa americana Nasdaq, no que deve ser o maior IPO de 2020.

Na década de 2000 e 2010, o principal objetivo das big techs chinesas era realizar sua abertura de capital na Nasdaq, como fizeram Baidu, em 2005, e Xiaomi, em 2018. Além da magnitude, a bolsa americana servia de "selo de qualidade" para as empresas chinesas dizerem a seus investidores que estavam listadas na Nasdaq. Há um motivo para isso: como há uma histórica desconfiança com o grau de fidedignidade dos números apresentados por empresas chinesas, estar listado em Nova York era, em outras palavras, afirmar que elas "cumpriam as mesmas regras que Apple, Microsoft e Facebook".

A fintech criada em 2004 por Jack Ma, o midiático fundador do Alibaba, é ao lado do WeChat, da Tencent, a principal responsável por matar o dinheiro de papel na China. As duas empresas lideraram um processo de digitalização que virtualmente chegou a toda população economicamente ativa da China. São 900 milhões de usuários ativos no mercado doméstico, comprando de joias caras a prosaicos cachos de banana em feiras de rua pagando via AliPay.

Em 2018, um grupo privado injetou US$ 14 bilhões na Ant por menos de 10% de participação na fintech, o que projetou um valor de mercado para o gigante tech de US$ 150 bilhões. Um terço da empresa pertence ao grupo Alibaba e outros 50% a seu fundador, Jack Ma. Analistas de mercado, no entanto, estimam que ao realizar IPO a empresa atingirá valor superior a US$ 200 bilhões.

Escritório da Ant Group, em Hangzhou: eles querem dois bilhões de usuários (Divulgação/ Alizilla)

Os números reais da Ant são pouco conhecidos. Analistas financeiros publicaram na Reuters que a empresa faturou US$ 17 bilhões em 2019, número que a Ant disse não ser correto, sem informar, porém, qual seria o real patamar.

O fato é que a empresa fatura hoje muito menos do que pode, justamente por ter foco em crescimento. O app AliPay permite fazer investimentos, operar uma conta poupança digital, medir a "confiabilidade" das pessoas por "crédito social" –um engenhoso sistema de avaliação dos cidadãos chineses–, opera empréstimos e, claro, oferece crédito. Tudo isso a taxas baixas ou eventualmente inexistentes. Se esticar a corda, a Ant pode lucrar muito mais.

Analistas estimam que, ao realizar seu IPO, a empresa oferecerá algo entre 5% e 10% de seu capital para venda. O valor será usado para financiar a expansão internacional da companhia, que já detém participação próxima de 40% na indiana PayTM, empresa líder em mobile payments na Índia, com 550 milhões de usuários.  O próprio AliPay detém hoje 300 milhões de usuários fora da China.

Parte do dinheiro obtido com o IPO, especula-se, deverá ser usado na expansão internacional da Ant, que tem como meta chegar a dois bilhões de usuários pelo mundo, crescendo na esteira da disseminação global do pagamento móvel.

O fato de o maior IPO do ano ocorrer fora de Nova York, valorizando as bolsas de Hong Kong e a Star Market, a equivalente de Xangai para a Nasdaq, sinaliza duas informações para o mundo.

A primeira é que os chineses confiam em seu próprio mercado de capitais para atrair os recursos que precisam, sem a necessidade de recorrer a uma bolsa nos Estados Unidos, país progressivamente hostil às iniciativas chinesas.

Outra, talvez até mais relevante, é que o "selo Nasdaq" de governança já não é tão indispensável para atrair a confiança de investidores internacionais, que deverão comprar papéis da Ant em Hong Kong, ao passo que a Star Market deve concentrar a captação de recursos domésticos.  O mundo, como se vê, mudou.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.