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Felipe Zmoginski

Guerra comercial entre China e EUA vai atrasar chegada da sua conexão 5G

Felipe Zmoginski

26/08/2020 04h00

Freepik

Um dos tiros disparados pela guerra comercial entre China e Estados Unidos acertou seu alvo: a expansão da rede chinesa de 5G. Fabricantes de equipamentos de telecomunicações, como a Huawei e a ZTE, já começaram a atrasar a entrega de novas estações base 5G no país, diante do aumento da incerteza no fornecimento de componentes dessa cadeia.

Juntas, Huawei e ZTE detêm mais de 80% dos contratos de estações base 5G da China Mobile, China Unicom e China Telecom, as três maiores operadoras de telecomunicações do país. Na semana passada, essas operadoras afirmaram que, por enquanto, os investimentos na expansão da cobertura 5G estão mantidos. O montante que as três teles chinesas gastarão para ampliar o 5G em seu país é de US$ 26 bilhões, apenas em 2020.

Atualmente, mais de 212 milhões de chineses utilizam o 5G diariamente, número maior que toda a população do Brasil. Com os gastos previstos nos próximos quatro anos, a expectativa é que até 2025 mais de 600 milhões de chineses naveguem nestas redes rápidas.

A velocidade desta expansão, porém, deve ser afetada pela pressão que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos (DoC, na sigla em inglês) faz sobre fabricantes americanos de chips e outras tecnologias utilizadas em produtos da Huawei, por exemplo. Por determinação do presidente Trump, companhias americanas já foram proibidas de fornecer componentes à Huawei e suspender a entrega de semicondutores para o mercado chinês.

As consequências desta briga são potencialmente negativas para o mundo todo, uma vez que dada a globalização da indústria de tecnologia, também há muitos componentes "made in China" essenciais à cadeia de produção de fornecedores ocidentais, como Cisco, Ericsson ou Siemens, por exemplo.

No mais recente capítulo do embargo comercial, o DoC determinou que empresas não-americanas que negociam com a Huawei terão que operar com uma "licença de venda de chips" para atenderem clientes dos Estados Unidos. Quem não se enquadrar na nova regra, poderá sofrer uma espécie de "embargo" de empresas dos Estados Unidos. Na prática, isto impede, por exemplo, que a Huawei compre componentes de uma indústria japonesa ou coreana que embarque em seu produto final componentes americanos.

Oficialmente, a estratégia americana visa proteger os Estados Unidos e seus aliados de "espionagem chinesa", acusação reiterada, mesmo que sem provas, pelo governo Trump. Para muitos analistas, porém, a razão real seria impedir o avanço tecnológico chinês, um competidor das companhias tech americanas.

Até o momento, a estratégia tem dado certo… para os Estados Unidos, uma vez que reconhecidamente as empresas chinesas estão atrasando suas entregas.

O método está sendo usado também para prejudicar players chineses de smartphones, hoje os maiores do mundo. Devido à grande pressão americana em fornecedores críticos, a Huawei não terá condições, por exemplo, de entregar os novos aparelhos top de linha chamados de "Mate 40" em setembro, conforme anteriormente anunciado.

Esses smartphones são equipados com o processador Kirin 9000, o mais avançado da corporação. Mas sem os chipsets (conjunto de circuitos integrados) críticos do mercado americano, não há como produzir os aparelhos na escala industrial necessária para atender ao mercado.

Embora tecnologicamente avançada em setores como o 5G, a China não é a líder absoluta em toda a cadeia produtiva e depende de fornecedores internacionais.

O que a Huawei está fazendo, assim como outros fabricantes chineses, é recorrer ao desenvolvimento de soluções domésticas. Isso vai consumir um tempo, mas em longo prazo deve diminuir a dependência do mercado americano.

Ao final, é possível que a atual pressão leve as companhias chinesas a se tornarem mais independentes, o que prejudica o interesse das vendedoras americanas de chipsets.

Isso deve acontecer em breve e a estratégia americana de restringir o acesso chinês às tecnologias de ponta tem alcance limitado. Trump terá que fazer muito mais do que isso se quiser manter os Estados Unidos no topo das inovações mundiais.

Para os não envolvidos diretamente na briga, como os brasileiros, a disputa tem uma consequência muito clara: o 5G por aqui, seja com equipamentos de que país for, ficarão mais caros e demorarão mais para chegar.

Sobre o autor

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Foi fundador da Associação Brasileira de Online to Offline e secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia. Com MBA em marketing pela FGV, foi head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo.

Sobre o Blog

Copy from China é um blog que busca jogar luzes sobre o processo de expansão econômica e desenvolvimento de novas tecnologias na China, suas contradições e oportunidades. O blog é um esforço para ajudar a compreender a transformação tecnológica da China que ascendeu da condição de um país pobre, nos anos 80, para potência mundial.